Rabiscos

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Rabiscos

Mensagem por Monycke Santos em Ter Abr 22, 2014 5:04 pm

1
As folhas das árvores balançavam lentamente. Talvez fosse o vento em sua forma calma e suave, fazendo os as pequenas e grandes folhas dançarem. Talvez fosse um pequeno animal entre os galhos, mexendo-os até as folhas se balançarem. Talvez fosse apenas um menino tentando pegar a fruta deliciosamente desejada. Era difícil saber. Uma simples pergunta, um pequeno questionário, mas, mesmo assim, podemos ter mil respostas diferentes, basta imaginar.
Mas dessa vez o motivo era diferente dos tratados a cima. O que teria no meio daqueles finos ganhos e das grandes folhas dançantes? Ah, logo poderei dizer, mas por enquanto, quero apenas retratar que, mesmo calmo, esse vento frio que bate em minha pele é simplesmente mágico. Senti-lo é como abraçar um mundo diferente, entrar num outra dimensão. Talvez seja o árduo amor pelo frio, o gelo me enlouquece, a neve me deixa fascinada e o vento me acalma.
Mas a história não é sobre mim, e sim sobre o que há por trás desse mistério da árvore. Sim, o que pode ter naqueles galhos, entre aquelas folhas.
Há alguns dias atrás uma pequena menina caminha no grande gramado, se jogava no chão e gargalhava ao ver as borboletas voando. Fechou ambos os olhos e imaginou dragões ao invés de nuvens branquinhas. Seu nome era Sophia Schnitter. Dona de longos cabelos castanhos-claro, que cintilavam a medida em que os raios solares tocavam os finos fios.  Seu rosto era redondo, e suas bochechas pareciam duas ameixas de tão rechonchudas. Dois grandes olhos da cor do mel se abriram, revelando a visão mais pura que podiam ver ou imaginar. Sim, ela era doce e gentil. Sua aura exalava algo bom, majestoso, simples.
Ao cair a noite, os pais de Sophia a alertaram de um novo acontecimento. Eles teriam que se mudar, e seria para um lugar bem diferente do qual ela estava acostumada. A pequena Sophia não entendeu o porque da mudança, mas tentou não demonstrar sua insatisfação quanto a notícia. Alguns minutos se passaram e a menina correu para o quarto, alegando estar com muito sono. Mentira. Ela estava elétrica, mas não queria ficar ouvindo sobre a mudança. Não queria ouvir sobre o lugar coberto de neve.

2
Um mês depois...

Sophia e seus pais já tinham chegado à Finlândia. Mas ela não estava feliz, não conseguia gostar do lugar. "Neve. Apenas neve para todos os lados em que olho. Não há borboletas ou pássaros cantantes. Não há vida nesse lugar. Apenas frio. Irei congelar", pensou Sophia. Ajeitou o cachecol e inchou as bochechas, logo adentrando à casa de madeira.
- Por que está tão tristonha? - perguntou Maria, mãe de Sophia.
- Porque aqui é frio, congelante. Não tem pássaros coloridos, e sim corvos. Não tem o choro dos golfinhos, e sim o lamento dos deuses nórdicos. Não tem o reino das pequenas fadinhas que ficavam por entre os vários arbustos, não existe magia nesse lugar. - dizia Sophia, ficando com os olhos cobertos de lágrimas.
A mãe da pequena menina se aproximou, passando dois dedos por entre os fios de cabelo da filha. - Não existe magia. Nem lá, e muito menos aqui. Não existe magia em canto algum, minha querida. - respirou fundo, prosseguindo com a fala. - Existe apenas nós, os humanos, e os animais. Somos apenas nós nesta terra.
Sophia a empurrou e inchou as bochechas, se irritando com a mulher. A olhou fixamente nos olhos, deixando transparente seu olhar de decepção. Como a própria mãe podia ser tão cruel e dizer aquelas palavras? Como ela podia ser capaz de destruir os sonhos de uma criança? Talvez os pais dela tenham destruído seus sonhos, mas ela não podia fazer o mesmo com a filha.
- Você me deixou infeliz, mas do que já estava. Acho que irei enfiar minha cabeça nessa neve branca e macia. Ao menos ela deve me confortar melhor do que a senhora.
Após demonstrar o quanto estava chateada, Sophia se levantou da cadeira e saiu pela porta da cozinha, batendo-a com força. A pequenina sentia seu coração quebrar, seu mundo estava desmoronando, não tinha amigos, nem sua própria família a apoiava. Maria nunca foi o tipo de mãe que ensinava a gostar do natal, que pendurava meias na janela, alertando a filha de que o papai noel viria. Sophia aprendeu a gostar dos contos e da magia, mas sozinha, sem a ajuda de um adulto.
Ela olhou para o lado direito, depois para o esquerdo e se sentou na neve. Começou a socar o chão macio, descontando a raiva que estava sentindo de tudo e todos. Mas aquilo não era o suficiente. Bater na neve era como socar um travesseiro grande e fofo. Foi então que ela decidiu explorar o lugar. Levantou-se e correu para o lado esquerdo, a procura de algo que pudesse complementar sua vida ali.
- Aqui não tem nada!! Sabe o que é nada? É nada! Nadica de nada. Nada, nada, nada, nada. - berrava Sophia.
- Eu concordo, aqui não tem nada. Mas o que significa nadica? - perguntou um filhote de urso polar.
Sophia olhou para o lado, arregalou os olhos e gritou: - Você fala! Ai meus botões coloridos. Ele é um urso, e fala. Mas ursos não falam, então ele não deveria falar. Mas ele fala!
Ela estava confusa, não conseguia entender o motivo do urso estar falando e olhando para ela. O pequeno animal branco cerrou os olhos e suspirou.
- Que humana mais escandalosa. Parece que nunca viu um urso falante. - murmurou a bola de pelos. - De onde você é? Qual é seu nome, humana? E por que está tão assustada, ou melhor, empolgada?
A garota olhou novamente para ele e seus olhos brilharam. Seria aquela uma prova de que a magia existia? Seria aquele o momento de começar a gostar do lugar coberto de neve? Sophia estava extasiada de mais para conseguir raciocinar, apenas queria conversar com o urso e saber se existia mais criaturas falantes.
- Er... Senhor urso, meu nome é Sophia. Eu morava no Brasil, no estado do Rio de Janeiro. Mas meus pais decidiram se mudar pra cá, talvez tenha sido a trabalho, mas eu ainda não sei o motivo... -  ela cerrou os olhos e arqueou a sobrancelha. - Calma, eu não sei o motivo de ter vindo pra cá. - Sophia pendeu a cabeça para o lado, esboçando uma expressão confusa em sua face, como se estivesse petrificada.
O urso a olhava confuso, sem entender o porque dela ser tão esquisita. Aproximou-se da mesma e a empurrou, fazendo com que ela caísse na neve, mas logo a pequenina se levantou.  - Aaah, verdade. Eu... Eu não estou assustada. Pensei que aqui não existisse magia,  mas se você fala, provavelmente é obra de uma bruxa maligna. Meu Deus, será que você vai me comer? - falava a garota, começando a se afastar do pequeno urso. - Eu vou morrer! É isso, vou morrer. Mãe? Mamãe... Mãe!!! - Sophia começou a correr, gritando sem parar.
O urso polar correu atrás dela, logo a cercando e jogando um punhado de pó azul sobre a mesma, o que a fez adormecer. - Pronto, agora você vai ficar quieta, e eu vou conseguir entender o motivo de você ser assim... Maluca. - dizia o urso, dando um longo suspiro.

3
Cinco reinos. Alguns deles representavam elementos da natureza. Um dos reinos era submerso pela água, o outro era o oposto, se localizava em chamas mais ardentes que a larva de um vulcão. O terceiro reino era no ar, entre as nuvens, podendo ter altura igualada ao castelo do gigante de João e o Pé de Feijão. O quarto reino era localizado num lugar afastado de todos os outros, mantido em segurança, escondido. O quinto reino era o mais importante de todos. O reino dos sonhos, dos pesadelos, onde monstros e heróis nasciam, era o reino da Imaginação.
Cada castelo tinha um guardião, um sentinela. Existiam até seres formados pelas nuvens. Imagine um grande monstro, com elmo e espada, porém, ele é feito de nuvem, e seus pertences, também. Imagine seres que podem ser criados a partir de uma pequena bola e fogo. E, mesmo pequeno, ele pode crescer e se tornar um grande monstro. Só depende do local em que ele estiver, e claro, seus criadores precisam permitir tal feito.
O que sou? O que você é? O que nós somos? Feche os olhos, respire fundo, conte comigo. 1, 2, 3, 4, 5. Abra os olhos, mas devagar, observando sutilmente o local em que você está. Sim, exatamente, estamos de pé no pico de uma grande montanha. Sorria, sinta o gélido vento acariciar sua pele. Relaxe. Não volte para seu reino, não, fique, por favor. Não vá para casa. Fique parado, de olhos abertos, sentindo o frio percorrer seu corpo. Se gostou da sensação é porque provavelmente pertence a este reino. Se você se sentiu mal, como se seu cérebro congelasse, talvez seja porque esse não seja o reino ao qual você pertence. E meu único conselho é que busque dentro de si, imagine, pense. Você é diferente. Nenhum ser é igual ao outro, então, saiba quem você realmente é.
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Monycke Santos
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